8 de agosto de 2011

Sobre a Arte


Piotr Kropotkin



De toda a parte nos chegam queixumes sobre a decadência da arte. Estamos longe, com efeito, dos grandes mestres da Renascença. A técnica da arte tem feito nestes últimos tempos progressos imensos; milhares de pessoas dotadas de um certo talento, cultivam todos os seus ramos; a arte, porém, parece fugir do mundo civilizado! A técnica progride, mas a inspiração freqüenta menos do que nunca os atelieres dos artistas.
De onde ela há de vir, com efeito? Só uma grande idéia pode inspirar a arte. A arte, segundo o nosso ideal, sinônimo de criação, deve lançar as suas vistas para o novo mundo que desponta; mas, salvas algumas exceções, aliás raríssimas, o artista profissional fica sempre muito ignorante e muito burguês para entrever os novos horizontes.
Esta inspiração não pode sair dos livros, nem tampouco a sociedade atual no-la pode dar. Para tê-la, é preciso procurá-la no seio da vida.
Os Raphael e os Murillo pintavam numa época em que as solicitações de um ideal novo se acomodavam ainda às velhas tradições. Pintavam para decorar as grandes igrejas que representavam, na essência, a obra piedosa de muitas gerações. A basílica com o seu aspecto misterioso e a sua grandeza que a ligava à própria vida da cidade, continha em si a inspiração para o pintor. Era para um monumento popular que ele trabalhava; dirigia-se a uma multidão e em troca inspirava-se nela. Falava-lhe no mesmo sentido e com a mesma alma que palpitava nas naves, nos pilares, nos vitrais, nas estátuas e nos pórticos ornamentados. Hoje, a maior honra a que o pintor aspira, é ver a sua tela emoldurada em madeira dourada e suspensa na parede de um museu - uma espécie de loja de bric-à-brac - onde se verá como se vê no Prado a Ascensão de Murillo, ao lado do Mendigo de Vellasquez e dos Cães de Phillipe II. Pobre Vellasquez e pobre Murillo! Pobres estátuas gregas que viviam nas acrópoles das suas cidades e que abafam hoje sob as tapeçarias vermelhas do Louvre!
Quando um escultor grego cinzelava o mármore, tentava fazer-lhe expressar o espírito e o coração da cidade. Todas as suas paixões, todas as suas tradições gloriosas deviam reviver na obra. Hoje, porém, a cidade una deixou de existir. Acabou-se a comunidade de idéias. A cidade não é mais do que uma aglomeração ocasional de indivíduos que não se conhecem, que não têem nenhum interesse geral, salvo o de enriquecerem uns à custa dos outros. A pátria é coisa que nem existe já. . . Que pátria comum podem ter o banqueiro internacional e o trapeiro?
Só quando uma cidade, um território, uma nação ou um grupo de nações houverem recuperado a sua unidade na vida social, é que a arte poderá haurir a sua inspiração na idéia comum da cidade ou da federação. Então o arquiteto conceberá o monumento da cidade, que não será já um templo, um cárcere, nem uma fortaleza; então o pintor, o escultor, o cinzelador, o ornamentista, etc., saberão onde colocar as suas telas, estátuas e decorações, as obras segregando toda a sua força de execução da mesma origem vital; os artistas caminhando juntos gloriosamente para o futuro.
Até lá a arte só poderá vegetar.
Os melhores quadros dos pintores modernos são ainda aqueles que representam a natureza, a aldeia, o vale, o mar com seus perigos e a montanha com seus esplendores. Mas, como poderá o pintor exprimir a poesia do trabalho dos campos, se se limita apenas a contemplá-la e a imaginá-la, e nunca lhe saboreou o gosto? Se apenas a conhece, como uma ave de arribação conhece os países sobre o qual paira no vôo errante das suas migrações? Se em todo o vigor da sua formosa juventude, nunca marchou desde o romper da alvorada atras de arado que sulca os campos, e se não sentiu o prazer de ceifar as altas hastes num elegante lance de foice a par de robustos ceifeiros rivalizando em energia com grupos de moças sorridentes enternecendo o ar com as suas buliçosas canções? O amor à terra e do que nela se cria não se adquire fazendo estudos a pincel; só trabalhando nela o sentimos - e sem a amar como é possível expressá-la? Eis porque tudo o que os melhores pintores têem reproduzido neste sentido é ainda tão imperfeito e tantas vezes falso. O que há é sentimentalismo e não força criadora.
É preciso ter visto o por do sol à volta do trabalho. É preciso ter sido camponês com o camponês para recolher-lhe o esplendor nos olhos.
É preciso ter-se estado no mar com o pescador, a toda a hora do dia e da noite, ter lançado a rede, lutado contra as vagas, arrostado a tempestade e sentido, após a faina rude, a alegria de levantar uma pesada rede ou voltar com ela vazia, para compreender a poesia da pesca. É preciso ter passado pela oficina, conhecido as fadigas, os sofrimentos e também as alegrias do trabalho criador, batendo o metal, domando-o e forjando-o aos clarões fulgurantes dos altos fornos; é preciso ter sentido viver a máquina para saber o que é a força do homem e traduzi-la numa obra de arte. É preciso, enfim, mergulhar na vida do povo para saber exprimi-la.
As obras destes artistas do futuro que tiverem vivido a vida do povo como os grandes artistas do passado, não serão destinadas à venda. Tais obras serão parte integrante de um todo vivo que sem elas não teria razão de ser, como elas não teriam razão de ser sem ele. É ali que se virá contemplá-las e que a altiva e serena beleza que elas encarnam produzirá o seu efeito salutar sobre os corações e sobre os espíritos.
A arte, para desenvolver-se, deve relacionar-se com a indústria por múltiplas transições intermediárias, de sorte que fiquem, por assim dizer, confundidas, como tão bem e tão freqüentes vezes o demonstraram Ruskin e o grande poeta socialista Morris. Tudo o que rodeia o homem, tanto em casa, como na rua, quer no interior ou no exterior dos monumentos públicos, deve ser de uma pura forma artística.
Isto, porém, só poderá realizar-se numa sociedade onde todos gozarem de bem-estar e de descanso. Ver-se-á então surgirem associações de arte onde cada um poderá experimentar as suas capacidades, porque a arte não pode passar sem uma infinidade de trabalhos suplementares puramente anuais e técnicos.
Estas associações artísticas tomarão a seu cargo o aformoseamento dos lares dos seus membros, à semelhança do que fizeram esses amáveis voluntários, os jovens pintores de Edimburgo, decorando as paredes e os tetos do grande hospital dos pobres da cidade.
O pintor ou escultor que tiver produzido uma obra de sentimento pessoal ou íntimo, oferecê-la-á à mulher que ame ou a uma pessoa que estime. Feita com amor, será essa obra inferior às que satisfazem hoje a vaidade dos burgueses e dos banqueiros, por haverem custado muito dinheiro?

 Kropotkin, Piotr. "A conquista do pão". Trad. Manoel Ribeiro, Lisboa:Guimarães, 1910, p. 125-128

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