29 de maio de 2016

Maratona 24hs de Filmes

Aproveitando o fim do feriadão resolvi fazer uma Maratona 24hs de Filmes (baseada na maratona que vi no canal Letras de Batom, do Youtube) foi bastante proveitoso e consegui ver alguns filmes que estavam na minha lista do Filmow há algum tempo.

Eis o resultado



Max é um garoto solitário, com muita imaginação e quer um pouco de atenção da família. Um dia ele foge de casa e vai parar numa ilha que é habitada por monstros, lá ele conhece Carol um monstro um tanto quanto instável, mas que se afeiçoa ao menino. Achei o filme delicado que trata bem o universo imaginário de uma criança da idade de Max, apesar de achar o protagonista um pouco chatinho, é um filme que fala com qualquer coração solitário. Dei 3 estrelas e 1/2 no filmow.











No longa de Craig Gillespie, Ryan Gosling vive Lars, um cara tímido, excêntrico que gosta de viver em solidão, um dia porém, ele resolve comprar uma boneca de verdade na internet e passa a tratá-la como uma pessoa, passeando pela cidade, conversando com ela, etc. O irmão mais velho o tem por louco, mesmo assim com o conselho de uma médica resolve entrar no jogo de Lars e fingir que Bianca é real, convencendo até mesmo pessoas na cidade a entrarem no jogo. Com o tempo todos se afeiçoam a boneca. Gostei do filme e a maneira sensível que ele aborda a doença de Lars e como a cidade inteira se importa com ele, fazendo de Bianca um ser real. Dei 3 estrelas e 1/2 no filmow









Com uma das locações em Belém do Pará, o longa que é inspirado na obra homônima de Milton Hatoum e dirigido por Guilherme Coelho, conta a estória  de Arminto que após longa ausência retorna à casa do pai e encontra Florita, os dois vivem dias de intensa paixão, mas logo acaba quando o mesmo encontra uma cantora misteriosa a qual se transforma em uma obsessão. O filme é muito bom, porém lento em algumas partes o que me fez ansiar pelo seu término, mas foi delicioso escutar o sotaque de Belém, além de contar com grandes atores como Daniel Oliveira e Mariana Rios, também tem participação os paraenses Dira Paes e Adriano Barroso. Dei 3 estrelas e 1/2 no filmow





4 - Sr. Ninguém, 2009

Estrelando o belíssimo Jared Leto e dirigido por Jaco Van Dormael. Sr. Ninguém é o último mortal na terra tentando viver entre os imortais, com 118 anos. O filme aparenta ser um pouco confuso, mas logo no início Nemo (vivido por Jared Leto) explica rapidamente sobre a Teoria das Cordas e suas várias dimensões a serem vividas. O filme narra principalmente a trajetória de vida  de Nemo Nobody  e suas possibilidades. Brincando com o espaço e tempo, Sr. Ninguém é um filme com um enredo bem construído, mas que requer atenção, para ser degustado e refletido e com um final surpreendente. Dei 4 estrelas  e 1/2 no filmow.
Se você assistiu o filme e não entendeu, calma, você pode assistir um vídeo tentando explicar o filme, no canal Clube de Cinema de Duas Portas, clicando AQUI.




5 - Amor por Direito, 2015

Baseado numa história real, o longa acompanha o relacionamento da mecânica Stacie Andree e a detetive Laurel Hester que foi diagnosticada com câncer em estágio terminal, querendo assim passar sua pensão post mortem para a companheira, porém em seu condado em Nova Jersey, o casamento igualitário ainda não é legalizado, e os políticos do mesmo negam a ela tal justiça, contando com a ajuda de seu parceiro da polícia e um grupo de ativistas pró casamento igualitário elas lutaram até o fim
É muito triste ver o quanto a população LGBTT é discriminada e lhe é negada direitos básicos e igualitários, gostaria de entender por que o amor entre essas pessoas causa tanto incômodo, principalmente entre religiosos.No Brasil a legislação ainda é muito opressora com relação a minorias. Me emocionei bastante assistindo esse filme. Dei 4 estrelas no filmow.
Para uma crítica mais aprofundada, você pode assistir ao vídeo de Tiago Belloti do canal Meus 2 Centavos, clicando AQUI.



Massachusets, início da década de 1950, acompanhamos a trajetória de Bernie Webber um guarda costeiro que começou a relacionar-se com Miriam. Ao decorrer do filmes, vemos que Bernie já tinha enfrentado uma tempestade em alto mar e perdido alguns homens, agora vemos ele mais uma vez enfrentando turbulências para salvar um grupo de marinheiros que teve seu barco petroleiro partido ao meio. Bernie sai com mais três guardas em um barco pequeno, tendo de enfrentar, além da tormenta, suas inseguranças. Conseguindo realizar o maior resgate em barco pequeno da história da guarda costeira americana. A história é de tirar o fôlego e o filme um tanto quanto agonizante, ficamos dentro da tempestade com um Bernie - que perdeu sua bússola na tempestade - desorientado e tentando salvar a vida de seus tripulantes. Um filme muito bom e emocionante, vale a pena assistir. Dei 4 estrelas no filmow.


Enfim galera, minha maratona foi super proveitosa com 6 filmes assistidos.

PS: Tentei assistir a filmes do século XXI, na próxima edição prometo assistir a filmes mais antigos =)

Meu perfil no FILMOW -> Ábia Costa




28 de maio de 2016

E acontece em Belém a XX Feira Pan-Amazônica do Livro




Mais um ano de festa literária em Belém do Pará, este ano com o tema "Terra, país de todos" está acontecendo dos dias 27/05 a 05/06/2016, no Hangar Centro de Convenções, tendo como escritora homenageada Amarílis Tupiassu, a XX Feira Pan-Amazônica do Livro.

Com ilustres convidados, além de um amplo espaço para venda e compra de livros, a feira conta com palestras, encontros literários, oficinas e rodas de conversas.

Você pode conferir a programação AQUI.

Além disso, os blogueiros e vlogueiros literários de Belém, e claro, seus leitores e inscritos, estão ansiosos para ver e ouvir a maior booktuber brasileira Tatiana Feltrin que estará no evento no dia 31/05 das 15hs às 17hs, no auditório Dalcídio Jurandir.

Confira o convite




Aguardamos todos vocês lá!

27 de maio de 2016

Eutanásia em foco no livro "Como Eu Era Antes De Você", de Jojo Moyes



Por Ábia Costa

Pelo dicionário, "eutanásia" significa "ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis". No Brasil a eutanásia é considerada crime, dependendo do ponto de vista jurídico pode a pena por homicídio pode ser reduzida de um sexto a um terço da pena. Uruguai, Holanda,Bélgica, Colômbia, Suíça, estão entre os países onde a eutanásia é legalizada.
A Suíça que é o destino de nosso protagonista no livro Como eu era antes de você, de Jojo Moyes, não há regulamentação expressa na corte judicial. É bastante famosa quando se trata de morte assistida, e há instituições de grande relevância e referência no mundo todo, como por exemplo, a Dignitas (escolha de nosso personagem principal), que promove mortes assistidas em Zurique e segundo a Folha de São Paulo (2002)

"Desde a fundação da organização, há quatro anos, 140 pessoas já se suicidaram no local, tomando uma dose letal de barbitúricos preparada por enfermeiros da organização.
Cerca de 80% dos "clientes" da Dignitas são estrangeiros, atraídos pela permissividade da legislação suíça. Os alemães são a maioria, mas há também britânicos, franceses, holandeses e americanos."
Aqui precisamos alertar que conterá spoilers.

Wil é tetraplégico, bonito, rico e não vê muitos motivos para continuar vivendo, tentando até mesmo o suicídio. Desesperados, seus pais concordam em lhe dar a eutanásia, mas pedem seis meses para que ele possa pensar melhor acerca do assunto, Neste momento eles contratam Louisa, uma ex-garçonete que não tem experiência como cuidadora, mas que tem muita animação pela vida. No começo, Wil Traynor e Louisa Clarke, são apenas pessoas que o destino uniu de alguma forma, mas com o passar do tempo se tornaram amigas. Apesar de Louisa não saber de imediato sobre a questão da eutanásia, ela tenta de alguma forma animar Wil, que se fecha e não permite que ela se aproxime, com o tempo descobrindo que faz parte de um plano para não deixar que Wil se suicide antes do prazo estipulado pelos pais, Louisa então elabora um plano para fazer Wil desistir da ideia da eutanásia, ela viaja com ele para as Ilhas Maurício, apesar de muita relutância, Wil aceita sua proposta de viagem. Lá Louisa que se vê apaixonada por Wil, se declara a ele, porém, ele esta decidido, e diz que vai cometer a eutanásia de qualquer forma, pois acredita que Louisa não merece estar atrelada a um tetraplégico.

O final é muito emocionante, confesso que foi a primeira vez que chorei em um livro, e fiquei pensando nele durante dias: Wil comente a eutanásia em Zurique na instituição Dignitas e deixa Louisa amparada financeiramente para que ela possa continuar sua vida sem ele. A história é tão bela, que Como eu era antes de você vai ganhar adaptação para o cinema e estreia dia 16/06/2016 com a talentosíssima Emília Clarke no papel de Louisa e Sam Claflin como Wil Traynor.

Voltamos então a questão da eutanásia, a qual eu sou a favor, pois a vida deve ser uma escolha e não há muito disso quando a pessoa já está incurável. Muitas vezes a pessoa que escolhe a eutanásia não tem vontade de morrer e sim acabar com a dor que sente, em muitos casos, tais dores são atrozes, levando a uma vida insuportável. Claro que há outras questões a serem considerados, mas este texto não visa aprofundar-se nesta questão para isso consulte as fontes.



Fontes:

A eutanásia no Brasil

Eutanásia: Análise dos países que permitem

7 de agosto de 2013

"Um dia eu percebo que você morreu...pra sempre."

Elena...


Este é o nome do filme/documentário que tive contato na última semana, e ainda estou procurando adjetivos para expressar o quão este filme me envolveu, o quanto a dor da personagem principal me tocou, o quanto o relato de sua mãe me comoveu.

Elena...

E parece que ainda ouço alguém te chamar.


O filme/documentário é baseado na história de Elena e contado por sua irmã Petra, que resolve seguir os caminhos da irmã e contar sua vida até o momento de seu suicídio em Nova York, mas não para ai, Petra também conta a angústia que ela e a mãe carregam após a morte da irmã mais velha, isso me faz lembrar um livro que li que diz que na questão do suicídio "a dor é dos que ficam".


O filme dirigido por Petra Costa já esteve em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Semana dos Realizadores (Rio de Janeiro), no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), Films de Femmes 2013 e no Festival de Brasília do Cinema Nacional, onde conquistou os prêmios de direção, montagem, direção de arte e melhor filme pelo júri popular, sempre na categoria documentário.

Para saber mais sobre Elena visite o site oficial 

Ábia Costa

6 de agosto de 2013

Na floresta do Alheamento - Fernando Pessoa

"A primeira vez que tive contato com este texto, na verdade um pequeno trexo, foi em um livro chamado A confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro - grande amigo de Fernando Pessoa. Tive então curiosidade de procurar o restante e o que encontrei foi uma obra belíssima, como só Fernando Pessoa é capaz de escrever. O poeta fingidor põe aqui a angústia de se estar num vazio entre o outro e si, que não é si mesmo. Confuso? Pessoas com sensibilidade poética entenderão a profundidade disto."  Ábia Costa


Na Floresta Do Alheamento

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... - rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada - tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas - de realidade que era, a ilusão - assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão - e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição.

Fernando Pessoa









Fernando Pessoa (1888 - 1935) foi um poeta e escritor português, nascido em Lisboa. É considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal. 

20 de setembro de 2012

Mais do que “Mal Intencionados”, seres humanos.


Por Ábia Costa

Um dia chego em casa e lá estava ele, meu exemplar de “Mal Intencionados”,  livro recentemente lançado pela escritora Geyme Lechner, que apesar de longe tenho o prazer de chamar de amiga. Assim que o recebi, comecei a lê-lo e Geyme  possui uma deliciosa forma de apresentar-nos a história, é algo que prende nossa atenção, um verdadeiro mergulho em histórias que podem ser de qualquer um.

Com ousadia a autora aborda temas como pedofilia, religião, miséria, homofobia, dentre outros temas tão recorrentes em nossa sociedade, mas que muitas vezes preferimos fechar os olhos.

O livro já começa com descrições fortes, contando a história do pequeno Tomás que desde muito jovem sente um apego descomunal pela mãe, o levando a crises de ciúmes que o fazem tomar atitudes, muito bem planejadas, mas que nos fazem duvidar quanto ao caráter  - não só do garoto - do ser humano de forma geral, afinal, quando realmente passamos a entender o mundo que nos cerca? E quando nosso caráter é formado? Será que realmente Rousseau estava certo ao afirmar que “nascemos bons”?

Após várias histórias paralelas, como as de Ana, mãe de Tomás que foi vítima de fanáticos religiosos, e de Damião, padrasto do garoto, que foi vítima do próprio fanatismo religioso que o acometia, não o deixando admitir seus próprios erros.

Geyme consegue nos transportar para dentro da história com cenas descritivas cheias de detalhes, muitas vezes eu me emocionei ao ler. E fui levada a diversos questionamentos sobre a vida e a sociedade, e acima de tudo o que é a felicidade.

O livro tem final feliz para alguns personagens, para outros nem tanto, mas é uma história que te faz querer ficar grudada do inicio ao fim, imaginando a vida difícil de pessoas que são vítimas do sistema a cada dia, ou seriam vítimas de si próprias?

Seus personagens são verdadeiros seres humanos em busca da felicidade, mas que pelo meio do caminho só encontraram dor, sofrimento e morte, mas que também encontraram alegria em meio a um universo que parece conspirar contra tudo e todos. 

Precisamos aprender a sorrir em meio a desgraça, e a aprender com nossos erros, admitir que não somos ingênuos, e que muitas vezes nosso caráter pode nos levar a fazer coisas ruins.
Mal Intencionados é isso, uma história de amor, egoísmo, erros, uma história que pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa e vale a pena lê-la. 




29 de maio de 2012

Rococó

O rococó é um movimento artístico europeu, que aparece primeiramente na França, entre o barroco e o Arcadismo. Visto por muitos como a variação "profana" do barroco, surge a partir do momento em que o Barroco se liberta da temática religiosa e começa a incidir-se na arquitectura de palácios civis, por exemplo. Literalmente, o rococó é o barroco levado ao exagero.




Diana after the hunt - François Boucher

31 de março de 2012

Cada momento


Por Ábia Costa

Em cada momento...
Uma intensa saudade invade meu peito
Saudade do teu sorriso encantador,
Do teu olhar meigo e de menino levado
Saudade do teu aconchegante abraço
Saudade daquele carinho antigo
e de conversas que, muitas vezes, foram nas madrugadas.
E em cada momento que
sorris meu coração pula de alegria
de ver em ti a felicidade que busco no alguém imperfeito,
mas leal que te tornaste em épocas não tão longínquas.
E ao me perguntar onde tais épocas ficaram no tempo
Lembro-me de episódio poucos, mas intensos
Em que ao teu lado vivi
E tento procurar aquele abraço que ficou suspenso no tempo
Ou será que o tempo ficou suspenso quando eu
em um momento de carinho estava em teus braços?
Pedindo para que aquele tempo volte, ou fique parado.
Em cada momento, na memória há guardada a sensação de ter por perto,
de sentir teu cheiro, de risos e momentos.
Devemos aproveitar enquanto as pessoas estão por perto,
pois algumas vezes a saudade não pode ser remediada
E ela dói mais que tudo na vida
E em cada momento
Espero que possamos estar juntos talvez
Nem que seja por um segundo, para que eu possa
eternizar a sensação de te ter só pra mim
a cada momento...


Para meu grande amigo Laércio Junior, te amo muito.



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