2 de novembro de 2009

A amizade verdadeira, por Arthur Schopenhauer


Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, também no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade autêntica, circulam as suas demonstrações exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural possível. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se há pessoas que de fato merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos decauda de um cão leal do que a cem daquelas demonstrações e gestos .A amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramenteobjetiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que,por sua vez, significa identificarmo-nos de fato com o amigo. Ora, o egoísmo próprio à natureza humana é tão contrário a tal sentimento, que a amizadeverdadeira pertence àquelas coisas que não sabemos se são mera fábula ou se defato existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, há muitas relações entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos egoístas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um grão daquela amizade verdadeira e genuína, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa razão,ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfeições. Elas elevam-se muito acimados vínculos ordinários, cuja natureza é tal, que não trocaríamos mais nenhuma palavra com a maioria dos nossos bons conhecidos, se ouvíssemos como falam denós na nossa ausência.

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