8 de abril de 2010

Esboços órficos, por Fernando Gebra

No absinto que percorre minhas entranhas, uma voz de criança chora a ausência daquele que partiu. Nuvens imitam desejos despedaçados por um dia haver estado em harmonia com os mais desequilibrados perfumes que invadem minhas pálpebras e deixam minha vista ofuscada na névoa embriagada. Os ventos que bramem em África trazem ao cais de Lisboa areias dos esconderijos mais secretos que o tempo não pode mais esquecer.
Formas fluidas em caminhos lambem as labaredas de um fogo que transmuta sensações múltiplas em esboços fragmentados de bipartições em toques de cidra. E as dunas de meus prantos escorrem fios de rubras etiquetas na mais perene natureza que clama o desconhecido, mas que transborda o vinho das taças onde era destinado o revelar daquele homem tão esperado e tão múltiplo como o próprio horizonte arroxeado de prantos e indecisões cósmicas.
Bato nos portais que se emperram na difícil tarefa de fazer com que eu ame os novelos cobertos de poeiras vindas do macadame que encobre as ruas de Lisboa. Os sapatos formam uma massa angular com toques de ruínas a percorrerem o interior do mágico universo, em místicas ascensões iniciáticas. Os carneiros são sacrificados para a festa das bodas de alguém que procura encontrar-se no crepúsculo dos dias e dos tempos.
Portas d`oiro ante meus ais, abri ao penetrar dessa natureza que busca sentir o perigo das sementes depositadas no vaso de barro que encobre o fecundar de um novo ser. Choros e mágoas se remexem nesta casa assobradada com varandas em forma decorada, ao estilo art noveau das espumas em góticas saliências. Uma sala enorme, com lustre magistral no centro, almofadas tecidas em fios d`oiro e tapete com desenho de leões domados pelos cavaleiros medievais, onde a força se rende ao som das elegantes tapeçarias vindas de além-mar.
Avisto a varanda que se forma com aberturas na escadaria que tento percorrer. Se me permitem, quero ver onde se encontra o retrado dele, daquele homem que se propagou pelas letras lusitanas a doirar em múltiplos elementos a natureza alquímica do universo. O choro se propaga e o lustre do canto da sala quer cheirar minha dor de saber que busco este encanto e não o encontro em parte alguma.
Paredes aveludadas se dispõem em figuras celestiais a bramirem os desejos outrora esquecidos. Subo as escadarias e chego a uma porta entreaberta. Peço permissão para adentrar-me aos aposentos, e sei que é de lá que o choro se propaga. Minhas pálpebras cansadas querem fixar-se em algum ponto para não ver aquela menina que chora com um álbum de fotografias nas mãos. Toda disforme e defeituosa, a menina interrompe seu choro e parece tentar esconder seu objeto da busca do prazer. Peço-lhe em joelhos que me mostre o que oculta há tanto tempo de meus olhos já fatigados com neblinas dianteiras. Ela reluta em dar-me o álbum.
Uma mulher alta e gorda, decerto a governanta da casa diz-me que Abiegna tem dor por haver perdido tudo ao deixar a montanha e se estilhaçar ao solo, Mas a menina Abiegna não quer me deixar entrever meu passado, É porque ela sofre duras penas desde que abandonou o centro do universo, Mas este centro tem origem em minha dor, Se sofres ou não, pouco sei, o fato é que Abiegna não pode ser contrariada pois chora, E eu, o que tenho feito até hoje senão chorar? Não sei mais quem eu sou, já consultei oráculos e Delfos adiantou que devo conhecer a mim mesmo, e é isso o que mais busco, Mas o que queres que Abiegna te faça se não a vês há muito tempo?, Quero senti-la como nunca a senti nos fragmentos de minh`alma enlouquecida.
A governanta, toda angelical no seu modo de sentir as barreiras que impedem Abiegna de ensinar-me o caminho certo, pede à menina que me deixe ver o álbum. Abiegna olha para o fundo de meus olhos e sorri de forma outrora conhecida nos fragmentos de meu ser. Por que Abiegna caiu da montanha, Não posso te dizer agora, tens de sentir mais as auroras que se abrem a ti. O álbum me é dado e abro suas páginas como se estivesse a ler o livro de minha existência perdida. Uma lágrima cai de meu rosto. O terror invade minh`alma dolorida. Vejo fotografias de um menino com uniforme de marinheiro, fotografias de revistas publicadas, fotografias de flagrantes delitros, fotografias de horóscopos, fotografias de poentes, fotografias de dores, fotografias de caleidoscópios que emanam em meu corpo como se quisessem arrastar-me para dentro do álbum. Não agüento mais saber que estou aqui e sou toda parte de desejos enlouquecidos.
Tardei a crer que posso, mas não consigo sair das escuras cavernas que invadem meu peito, e que perpetuam minha dor nas infinitas brumas do meu sonho de príncipe que encontra a princesa na existência ao mesmo tempo una e múltipla, das chuvas que separam meu porto dos limites de árvores em horizontalidade vertical, dos longos caminhos iniciáticos onde minhas vestes são retiradas e postas no chão, onde durmo sob ciprestres, ou ainda do monte que não consigo escalar, tudo se rompe em cristais do copo de vinho que corta minha mão e mistura sangue escorrido com sangue adentrado.
Outro aposento escuro invade meu pensamento como rios subterrâneos. E a dura realidade se estampa em forma de dossel encantado, onde deposito toda minha fadiga de me sentir em essência. Quando começo a despir-me, vejo uma figura que me abraça pôr trás, sinto o deslizar de suas mãos pelo meu corpo, são mãos aveludadas com cheiro de papéis e tinta que ao deslizarem sobre o papel tingem as colorações do mais perfeito verso. As mãos circulam em rituais pelo meu corpo, tento olhar a figura que me faz sonhar em delírios tão adormecidos, mas não creio que me esteja a ver, nem eu a vejo, como que poderá me ver. Mas me sente, me toca, me sufoca em carinhos pré-destinados. Leva-me a cama, mas não vejo seu rosto.
No outro aposento está Abiegna e a governanta. O que preciso para me conhecer?, pergunta a menina, Precisas saber encontrar-te diante de tantos fios que se separaram do novelo que eu tecia. Vou-te contar a verdade, não foste concebida como todos os seres, foste criada, foste imaginada, porém não sentida, Não te estou a entender, Miss Dorah, Mas sabes o que há naqueles aposentos perto dos teus? Lá estão duas pessoas feitas do mesmo barro, com o mesmo corpo a se tocarem, a se sonharem, a se beijarem, a se penetrarem .... Tudo é uno e múltiplo, o Mestre dizia isso, não te lembras? São dois homens que se tocam, que se sonha, que se beijam, que se penetram para saber que são unos e múltiplos, argila do mesmo barro, porque aquele cavalheiro que te pediste as fotos não está praticando sodomia... Está a descobrir-se a si mesmo, parte de um todo disforme, tão disforme como tuas pernas, minha menina. Eles são matéria da mesma matéria, alma da mesma alma como o poeta da foto aprisionado que se multiplicou para ser parte de um todo e libertou o cavaleiro da sua cavalgada de mágoas. E quem é o cavaleiro? E o homem que se possui com ele e a ele? Queres mesmo que te diga, pois te digo que ele e o próprio-outro são também teus desejos, minha rica, teus mais puros desejos....


Fernando Gebra

Um comentário:

Fernando disse...

Sinto-me honrado em ter um conto meu publicado no seu blog. Tenho acompanhado algumas de suas postagens e gostei muito. Os "Esboços órficos" datam de uma época mais lusitanista de minha vida, em que os desejos permeavam quimeras, onde os sonhos se misturavam a crepúsculos, o suor de antigas ruínas. Saudações órficas. Fernando Gebra

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